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Sábado, Setembro 08, 2007

Índice

Terça-feira, Setembro 19, 2006

Deus Inefável - Confissões - Agostinho

Deus é Inefável

O que és, portanto, meu Deus? O que és, pergunto eu, senão o Senhor meu Deus? “Quem é, pois, senhor, senão o Senhor? Ou quem é deus, senão nosso Deus?” (Sl 18.17).

Ò altíssimo, infinitamente bom, poderosíssimo, antes todo-poderoso, misericordiosíssimo, justíssimo, ocultíssimo, presentíssimo, belíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível, imutável eu tudo mudo, nunca novo (é novo quem adquire algo que antes não possuía; portanto, quem é perfectível) e nunca antigo, tudo inovando(Ap 21.5), conduzindo à decrepitude os soberbos, sem que disto se apercebam (Jó 9.5), sempre em ação e sempre em repouso, recolhendo e de nada necessitando; carregando, preenchendo e protegendo; criando, nutrindo e concluindo; buscando, ainda que nada te falte.

Amas e não te apaixonas; tu és cioso(Gl 2.18; Zc1.14; 8.2), porém tranqüilo; tu te “arrependes” (Cf Gn 6.6) sem sofrer; entras em ira (Ex 4.14), mas és calmo; mudas as coisas sem mudar o teu plano; recuperas o que encontras sem nunca teres perdido; nunca estás pobre, mas te alegras com os lucros; não és avaro e exiges juros (Mt 25.27); nós te damos em “excesso” (Lc 10.35), para que sejas nosso devedor. Mas, quem possui alguma coisa que não SEJA TUA? Pagas as dívidas, sempre sem que devas a ninguém, e perdoas o que te é devido, sem nada perderes.

Mas, que estamos dizendo, meu Deus, vida da minha vida, minha divina delícia? Que consegue dizer alguém quando fala de ti? Mas ai dos que não querem falar de ti, pois são mudos que falam.

O DESEJO DE DEUS.

Quem me fará descansar em ti´? Quem fará com que venhas ao meu coração e o inebries a ponto de eu esquecer os meus males, e me abraçar a ti, meu único bem?

Que és para mim? Tem misericórdia, para que eu fale. Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes amar-te e, se eu não o fizer, te indignares (Sl 85.6) e me ameaçares com imensas desventuras? Como se o não te amar já fosse desgraça pequena! Dize-me, por compaixão, Senhor meu Deus, o que és tu para mim? “Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação” (Sl 35.3). Dize de forma que eu te escute. Os ouvidos do meu coração estão diante de ti, Senhor; abre-os o “dize à minha alma: Eu sou a tua salvação”. Correrei atrás destas palavras e te segurarei. Não escondas de mim a tua face (Dt 31.17.32.20).: que eu morra para contempla-la e para não morrer!

Minha alma é morada muito estreita para te receber: serás alargada por ti, Senhor. Está em reinas: restaura-a! Tem coisas que ofendem aos teus olhos: eu o seu e confesso. Mas quem pode purifica-la? A quem, senão a ti, eu clamarei: “Purifica-me, Senhor, dos pecados ocultos, e perdoa a teu servo as culpas alheias”? (Sl 19.13,14).

Creio, e por isso falo, Senhor: (Sl 116.10) – tu sabes. Não te confessei “contra mim as minhas faltas, meu Deus, e não perdoaste a maldade do meu coração?” (Sl 32.5) Não discuto contigo, (Jó 9.3; Jr 2.29) que és a verdade, e não quero enganar a mim mesmo, para que a minha iniqüidade não minta a si mesma (Sl 27.12). Não discuto contigo porque, “se te lembrares de nossos pecados, Senhor, quem suportará teu olhar?” (Sl 130.3).

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

INVOCAÇÃO A DEUS ( CONFISSÕES – AGOSTINHO )

“Grande és tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e a tua sabedoria não tem limite” (Sl 48.2; 96.6; 145.3; 147.5). E quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação; o homem carregado com sua condição mortal, carregado com o testemunho de seu pecado( 2Co 4.10; Rm 7.17,23) e como o testemunho de que resistes aos soberbos (Pv 3.34; Tg 4.6; 1Pe 5.3); e, mesmo assim, quer louvar-te o homem, esta parcela da tua criação.

Tu o incitas pra que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti. Dá-me , Senhor, saber e compreender ( Cf - Sl 119.34,73,144) qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te. Mas, quem te invocará sem te conhecer? Por ignorá-lo, poderá invocar alguém em lugar de outro. Ou será que é melhor seres invocado, para seres conhecido? “Como, porém, invocarão aquele em quem não crêem? E como terão fé sem ter quem anuncie” (Rm 10.14). Louvarão o Senhor aqueles que o procuram (Sl 22.27). Quem procura o encontra (Mt 7.8; Lc11.10), e, tendo-o encontrado, o louvará. Que eu te busque, Senhor, invocando-te; e que eu te invoque, crendo em ti: tu foste anunciado. Invoca-te Senhor, a minha fé, que me deste, que me inspiraste pela humanidade de ter Filho, pelo ministério de teu pregador.

COMO E POR OQUE INVOCAR A DEUS?

E como invocarei o meu Deus, ó meu Deus e meu Senhor? Pois, ao invoca-lo, eu o chamarei para dentro de mim. Que lugar haverá em mim, onde o meu Deus possa vir? Onde virá Deus em mim, o Deus “que fez o céu e a terra?” (Gn 1.1; 2Co 2.11).

Há então, Senhor meu Deus, algo em mim que te possa conter? E o céu e a terra, que fizeste e nos quais me fizeste, são eles capazes de te conter? Ou então, visto que sem ti nada existe daquilo que existe, será que tudo que existe te contém? Portanto, já que eu de fato existo, porque tenho de pedir tua vinda a mim, a mim que não existiria se não existisses em mim? Eu ainda não estive nas profundezas da terra e, no entanto, tu aí também estás. Pois, “mesmo que eu desça às profundezas da terra, aí estás” (Sl 139.8) Pois eu não existiria, meu Deus, eu de forma alguma existiria, se não estivesses em mim. Ou melhor, eu não existiria se não existisse em ti, “ de quem tudo, que , por quem tudo, em quem todas as coisas existem”? (At 17.28; Rm 11.36; 1Co 8.6). É assim , Senhor, é assim mesmo. Para onde te chamo, se já estou em ti? De onde virias para estares em mim? Para onde me afastaria, fora do céu e da terá, para que daí viesse a mim o meu Deus, que disse: “o céu e a terra estão cheios da minha presença” (Jr 23.24).

DEUS ESTÁ EM TODAS AS COISAS E NENHUMA O CONTÉM

Portanto, cabes tu no céu e na terra, visto que os enches com a tua presença? Ou, enchendo-as, resta ainda alguma parte de ti, por não te conterem? Por onde difundes o que resta de ti, depois de repletos o céu e a terra? Ou não tens necessidade de ser contido em alguma coisa, tu que tudo conténs, visto que as coisas que enches, as ocupas contendo-as? (Deus “contém” todas as coisas, no sentido de que conserva, sustenta, dá ânimo, vida e força a tudo). Não são, pois, os vasos cheios de ti que te tornam estável porque, ainda que se quebrem, não te derramas; e quando te derramas sobre nós (Gl 2.28; At 2.17; Tt 3.6) – não és tu que de abaixas, mas nós que somos elevados a ti; não te dispersas, mas nos recolhes a nós.

Mas tu, que tudo enches, o fazes com todo o teu ser. E já que o universo inteiro não pode conter todo o teu ser, conterá somente um parte? E todos os seres conterão a mesma parte, ou cada um conterá uma, os seres maiores a parte maior, os menores a menor? Mas há em ti partes maiores e partes menores? Ou estás inteiro em toda parte, e nada existe que te contenha inteiramente?

Sexta-feira, Setembro 08, 2006

Se os Corpos das Mulheres Ressuscitarão Mantendo-se no Seu sexo - Agostinho

Alguns, baseados nestas palavras:

Até que cheguemos todos à unidade da fé, ao homem perfeito, à medida da plenitude da idade de Cristo (Donec occurramus omnes (in unitatem fidei) in virum perfectum, in mensuram aetatis plenitudinis Cristri - Efésios 4:13),

e nestas outras:

Conformes à imagem do Filho de Deus (Conformes imaginis filii dei - Romanos 8:29),

não acreditam que as mulheres hão de ressuscitar com o sexo feminino, mas todas no sexo masculino, porque Deus fez apenas o homem de barro e, à mulher, tirou-a do homem. Mas a mim parece-me que são mais judiciosos os que não duvidam de que ambos os sexos hão de ressuscitar. É que, lá no Alto, não haverá já a paixão (libido) que é a causa de toda a perturbação. Realmente, homem e mulher, antes de pecarem, estavam nus e nem por isso se sentiam perturbados. Desses corpos serão extirpados os vícios e será conservada a natureza. O sexo feminino, porém, não é vício, mas natureza, embora, na verdade, doravante liberta do coito e do parto; subsistirão, porém, os órgãos femininos, não já acomodados ao antigo uso mas a uma nova beleza com que já não será aliciada a concupiscência, que se anulará, dos que para ela reparam, mas com que serão louvadas a sabedoria e a clemência de Deus que fez o que não era e libertou da corrupção o que fez. Que, na verdade, no princípio do gênero humano, se formou a mulher com uma costela tirada do lado do homem adormecido - é um fato com que convinha fossem profetizados então Cristo e a Igreja. Na verdade, este sono do varão significava a morte de Cristo, cujo lado, quando estava inanimado ainda suspenso da cruz, foi atravessado pela lança, e dele saiu sangue e água - que, como sabemos, são símbolos dos sacramentos com que se edifica a Igreja. Foi precisamente desta palavra que se serviu a Escritura - lendo-se nela, não a palavra formou nem a palavra modelou mas antes:

Edificou-a (à costela) em mulher (Aedificavit eam in mulierem - Gênesis 2:22);

é por isso que o Apóstolo diz a edificação do corpo de Cristo que é a Igreja. Tal como o varão, a mulher é, portanto, uma criatura de Deus; se ela foi formada à custa do homem, foi para pôr em destaque a unidade; e quanto à maneira
como foi formada, figura ela, como já se disse, Cristo e a Igreja. Portanto, quem instituiu os dois sexos, os dois restabelecerá. Por fim, o próprio Jesus, a quem os Saduceus, que negavam a ressurreição, perguntaram de qual dos sete irmãos seria a mulher que eles, uns após outros, tinham desposado, pois a cada um pertencia, como a lei preceituava, perpetuar a descendência do irmão falecido, respondeu:

Estais enganados porque não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus (Erratis nescientes scripturas, neque virtutem Dei - Mateus 22:29);

e embora fosse ocasião para dizer:

- Essa de quem me falais será também ela um varão e não uma mulher - não disse isto, mas disse antes:

Pois na ressurreição nem elas nem eles casarão, mas serão como os anjos de Deus no Céu (In ressurrectione enim neque nubent neque uxores ducent sed sunt sicut angeli Dei in Caelo - Mateus 22:30);

na verdade, iguais aos anjos na imortalidade e na felicidade, mas não na carne - nem também na ressurreição, de que não tiveram necessidade os anjos porque não puderam morrer. O Senhor negou, portanto, que na ressureição haverá núpcias mas não negou que haverá mulheres e negou-o precisamente quando se tratava de tal questão; tê-le-ia resolvido mais rápida e facilmente negando que então houvesse sexo feminino se soubesse que ele não existiria lá. Mas, ao contrário, confirmou que o (sexo) havia de subsistir ao dizer, referindo-se às mulheres:

Nem elas casarão (Non nubent. - Mateus 22:29),

e, referindo-se aso homens:

Nem eles casarão (Nec uxores ducent. - Mateus 22:29).


Haverá lá, portanto, casados e casadas de cá: mas lá é que não voltarão a casar.

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Madaura ( 366 - 370 ) - Agostinho, Sua História

ÁFRICA (354 – 383 )
2. Madaura: (366 – 370 )


COMO AGOSTINHO NÃO MENCIONA A CIDADE em que cursou o secundário até o livro 2 de O Testemunho – muitos leitores associaram a Tagasta o relato, no livro 1, de seus dias na escola. Mas, no livro 1, ele fala do estudo de Virgílio e da reprovação nas aulas de grego – currículo secundário que deve ter iniciado aos 11 ou 12 anos e completado aos 16, idade que dá para o seu retorna de Madaura (Perler 126 ).

Apesar de Madaura (vizinha da atual Mdaourouch ) localizar-se, em linha reta, a apenas 25 quilômetros de Tagasta, a estrada era sinuosa e difícil, como a maior parte dos itinerários por terra da Numídia. Era preciso descer ao vale de Medjerda e passar pelos planaltos centrais, os grandes campos de trigo e cevada que compunham o celeiro de Roma (Perler 126 -127)

Madaura orgulhava-se de ser uma cidade sofisticada em uma região arrasada. As classes mais pobres da região, geralmente compostas por donatistas, mantinham o culto de mártires com nomes singulares, ridicularizados pelos instruídos – nomes como Miggin, Sanamen, Nemphano... Mas as estátuas de deuses pagãos eram reverenciadas no fórum. Africanos cristãos talvez vissem com seu grande orador Cipriano, do século III. Mas Madaura gabava-se de seu concidadão do século II, Apuleio, o romancista irreverente de O Asno de Ouro.

Achados arqueológicos mostram que havia um paganismo florescente em Madaura – a cidade havia lucrado com o reino neopagão do imperador Juliano, cuja vida se encerrou apenas três anos antes de Agostinho lá chegar. Com exceção do breve reinado de Juliano (361 – 363 ), o império havia sido formalmente cristão desde o decreto de tolerância de Constantino, em 313. Mas postos e títulos pagãos sobreviveram – o amigo e protetor de Agostinho em Tagasta, Romaniano, conservou o título pagão de “Padre” (Flamen ) .

Educação pra todos aqueles que aspiravam a influência ainda existia nos clássicos pagãos, o que foi, posteriormente, deplorado por Agostinho, mas aceito sem contestação por seus pais. O resultado foi uma mistura curiosa de sensibilidades religiosas. Como arnoldo Momigliano colocou: “Adão e Eva e o que se seguiu ( na Bíblia ) tiveram, de certa forma, de estar presentes em um mundo povoado por Deucalião, Cadmo, Fômulo e Alexandre, o Grande”.

Para muitos, essa mistura religiosa-mística nunca chegou a ser realmente organizada. Quando Agostinho era bispo, precisou repreender membros de sua congregação que afirmavam: “Só porque freqüento ídolos e me aconselho com visionários e adivinhos, não significa que tenha abandonado a igreja – eu sou cristão!”

É contra tal confusão que devemos interpretar a severa crítica de Agostinho a seus pais e professores por intoduzi-lo no sistema pagão dos mitos e da poesia durante a sua meninice. Recebeu-os com avidez: “Os meus ouvidos estavam inflamados de mitos pagãos, e quanto mais os coçava mais aumentava o comichão”. Foram-lhe designados esses contos inflamatórios, não somente para serem lidos como também representados – teve de personificar Juno em uma declamação pública de sua própria composição. Embora lhe dissessem que a situação era fictícia, teria de representar a paixão da deisa da maneira mais realista possível.

Eram todos extremamente reais para ele. Amava Virgílio e escreveu sobre ele em A CIDADE DE DEUS.

“É difícil arejar mentes transbordando dele em anos marcantes, como diz Horácio:

‘O primeiro vinho colocado no tonel
Muito tempo depois continuará nele a ser exalado’.

Sofreu com Dido, sua amiga africana, quando abandonada por Enéias - assim com Agostinho foi abandonado pelos pais que o mandaram para Madaura. Dirigiu o brado de vingança de Dido ( Eneida 4.625) aos professores que o surraram por não aprender grego: “Erga-se de minhas cinzas uma Ira vingadora” O adolescente Agostinho penetrou tão ardorosamente no sistema mítico de Virgílio que convenceu a pelo menos um pagão sofisticado em Madaura de que ele também era pagão. Esse homem mais velho, um íntimo de Agostinho durante sua estada em Madaura, escreveu-lhe depois de sua conversão, mencionando que ele agora prestava homenagem a mártires cristãos fetiches como Miggin e Namphano.

Temos somente uma carta desse correspondente, Máximo, e a resposta de Agostinho, mas há referência nela que indicam ter havido um correspondência precedente e ( provavelmente ) posterior. O tom é de uma familiaridade brincalhona dos dois lados. Máximo pede a Agostinho pra não aturdi-lo com a sua retórica costumeira, mas que argumente com seriedade:

“Ansioso com sempre pela alegria de receber notícias suas – a energia de suas palavras que recentemente me deram, caridosamente, uma agradável surra -, não reluto em responder na mesma moeda”

Agostinho simula que Máximo deve estar brincando se acha que esses deuses pagãos lascivos são mais admiráveis do que os homens que morreram por sua fé:

“Estamos tratando de algo sério ou está na hora de contar piadas? Não posso julgar, a partir do tom de sua carta, se prefere sagacidade è pertinência porque seus argumentos são fracos ou porque você é, como sempre, tão afável”.

Máximo não percebeu onde vive?

“Como pode se esquecer de quem é, um africano discursando pra africanos (estamos nós dois na África, como sabe ), para achar os nomes fenícios tão desprezíveis?”

Como Agostinho lidava da mesma maneira com as línguas berbere e fenícia, achava que o nome da sua mãe era fenício – como o de Dido. O seu amor por seu país aparece na repreensão a Máximo;

“Se a língua fenícia o ofende, e você nega ( o que os mais eruditos admitem ) que existe uma grande sabedoria nos documentos fenícios, então deve se envergonhar do local do seu nascimento, o berço dessa língua”

Agostinho trata Máximo como mais velho do que ele. Seria ele um professor ou simplesmente um mentor originalmente venerado? De qualquer maneira, estava em posição de dizer que Agostinho partilhava sua convicção religiosa ( secta ). A partir disso, podemos avaliar a intensidade da sedução que a literatura pagã exerceu sobre Agostinho, e compreender melhor sua denúncia posterior daqueles que o expuseram a ela. Conhecia o poder dos poetas pagãos – durante algum tempo, o haviam tornado pagão.

Assistido apenas por seu pedagogo em Madaura, Agostinho ficou livre pra fazer o que quisesse, contando mentiras ao pedagogo, ao professor e aos pais, para evitar a escola e escapulir para jogos no anfiteatro. Quando foi OBRIGADO a freqüentá-la, odiou o sistema de chibatadas, um costume universal, defendido pelos pais. Apesar do chicote, recusou-se a aprender o grego – não porque não conseguisse, mas porque não aprnderia dessa maneira.

Tinha aprendido rapidamente o latim porque “o seu coração estava trabalhando para se expressar”, mas com o grego a sua “curiosidade livre de grilhões” foi refreada por “atribuições intimidadoras”. Mais tarde, arrependeu-se, respeitosamente, de sua rebeldia, mas seus colegas admiraram sua resistência orgulhosa, apesar das repetidas chibatadas.

A falta do grego revelou-se, mais tarde, uma grave deficiência – embora tenha conseguido, em parte, transformar até mesmo isso em uma vantagem. A sua profunda originalidade provém, até certo ponto, da sua independência de outras tradições.

Agora ele irá retornar a Tagasta.

Não perca o próximo artigo: Tagasta ( 370 – 371 ).

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Tagasta ( 354 - 366 ) - Agostinho, Sua História

ÁFRICA (354 – 383 )


1. Tagasta: ( 354 – 366 )


DESDE MENINO CONHECIA as montanhas, mas não o mar. Tagasta, local de seu nascimento, no norte da África (atual Souk Ahras ), localizava-se a 96 quilômetros do Mediterrâneo, isolada pela cadeia de montanhas de Medjerda.

Mais distante, ao sul, a cordilheira de Aures a separava do deserto de Saara. As montanhas fariam sempre parte de seu panorama mental – símbolos da estabilidade de Deus ou do movimento em direção ao céu no evangelho de João. Mas, em direção ao mar, tinha de tentear com a inferência mental. Já maduro, quando um amigo de sua cidade natal lhe perguntou como era possível “recordar” coisas nunca experimentadas, ele admitiu que ninguém poderia se lembrar do sabor de um morango se nunca o tivesse provado. Mas o conceito de água com uma divisa está tão próximo quanto o copo de água mais perto de você. Assim, o herói de Virgílio, Enéias, estaria lutando com tempestades em um copo de água quando Agostinho leu a ENEIDA pela primeira vez. Ela nasceu em um mundo muito contido.

A Numídia fazia parte do Império Romano, cujos sinais cercaram Agostinho enquanto ele crescia – as estradas retas de pedras, os longos aquedutos, os anfiteatros cheios. Ao longo de sua orla ao norte, o império foi perturbado por “bárbaros” e por guerras teológicas ( a alta teologia e a vilania das disputas sobre o arianismo ). Mas o extremo sul do império estava seguro. Conhecida como o celeiro de Roma, a Numídia era separada dos nômades do deserto por um comprido fosso (a Fossa) que definia a jurisdição de Roma tão claramente quanto o Muro de Adriano no extremo norte do Império.

Agostinho teria presumido, assim como seus pais, que a ordem romana era eterna.
Mesmo quando estava morrendo, aos setenta e seis anos, teve problemas em aceitar o colapso de uma ordem política que considerava providencial. Não se esqueçam de que Roma era cristã desde 313, e os visigodos cristãos sitiavam Hippo.

Tagasta era, sem dúvida nenhuma, cristã (católica ) – por volta de 354, quando Agostinho ali nasceu. Mas tinha sido controlada, durante a meninice de sua mãe, pelos donatistas, (assim denominados por causa do seu líder – Donato ) que veneravam os mártires da perseguição de Dioclécio e que não se reconciliariam com ninguém que tivesse condescendido na época do julgamento.

W.H.C. Frend, historiador do donatismo, acha que a mãe de Agostinho foi criada na atmosfera dessa seita. O seu nome, como o de muitos donatistas, é berbere – a forma correta é Mônica, relacionado à antiga deusa líbia Mon, que era venerada na vizinha Thibilis.

Agostinho obedecer ao costume berbere quando deu o nome de Deodato(Adeodatus, em latim ) a seu filho, embora nunca tenha aprendido a língua berbere falada pelos trabalhadores braçais em seu país. Seus pais e os escravos que o criaram falavam somente o latim como ele, já que havia sido destinado para a burocracia romana na qual seu pai exercia uma cargo menor.

Seu pai, Patrício (Patricius), ocupava um cargo na “cúria” – era um decurião, um membro do conselho municipal com o encargo de cobrador de impostos, e não um cristão. Agostinho diz que ele possuía muito pouca terra (tenuis) - , uma postura típica de sua classe. Como o historiador do império A.H.M. Jones – escreve: “Nunca se soube de um decurião satisfeito”. Estavam presos à sua terra e a seus deveres,e assim era com os seus herdeiros – Agostinho só escapou disso ao vender sua herança quando se tornou bispo.

Agostinho não nos conta praticamente nada sobre si próprio antes de completar onze ou doze anos, quando então passou a viver com o seu pedagogo em uma cidade vizinha, onde havia uma escola secundária. Mas, em seus escritos posteriores, percebemos traços do garoto sagaz e observador que deve ter sido. A principal forma de arte da África romana era o mosaico – ele menciona os ricos mosaicos que seu protetor, Romaniano, possuía em Tagasta. Mais tarde, pensaria na ordem do universo segundo o modelo dos mosaicos de sua terra natal:

“Se uma pessoa tivesse de olhar uma pavimentação intricada de modo tão minucioso a ponto de ver somente as tesserae isoladamente, diria que o artista, carecendo de um senso de composição, havia disposto as pequenas peças ao acaso, já que não poderia perceber de uma só vez todo o padrão, incustrado pra formar uma única imagem de beleza”.

Mesmo quando já na faixa dos 70 anos, Agostinho continuava a pensar na ordem divina em termos de mosaicas: “A ordem dispõe todas as coisas, regulares e irregulares, nos lugares que lhes convêm”

Agostinho odiava a escola e matava aula para ver jogos – disputas de cães contra um urso acorrentado promovidas por Romaniano, ou as brigas de galos queu podem ser vistas em um mosaico esplêndido descoberto perto de Cartago. Apesar de Agostinho mais tarde se tornar muito crítico em disputas em arena, alguns “esportes” de sua juventude continuaram a atraí-lo. Mesmo quando se preparava para o batismos escreveu:

“Vimos galos de briga se excitando para uma rinha. Tivemos de assisti, pois que horizontes os olhos do amor não perscrutam, torcendo por um indício do belo esquema da razão, que confere e impele todas as coisas (percebendo-o ou não ), um esquema que faz com que seu observador responda de imediato ao seu menor sinal? Esquema que cintila seus sinais de qualquer coisa, em qualquer coisa. Por exemplo, esses galos: o impulso de suas cabeças em direção à batalha, o erguer de suas cristas, seus ataques audaciosos, as defesas ágeis, pura ação animal sem pensamento, e ainda assim como são hábeis em cada movimento; pois uma mente superior age através deles, ordenando todas as coisas. No fim, o direito do vencedor: o exultante grito de vitória, um corpo retesado como orgulho do poder. E os ritos da derrota – asas flácidas, porte e grasnido impróprios; todos com a aparência estranha e, por sua consonância com a maneira convencional da natureza, belos”

Uma dezena de anos mais tarde, ele escreveu: “Eu não vou mais à arena assistir a um cão de caça perseguir uma lebre. Mas se por acaso vejo isso no campo, a caça me atrai, distrai a minha concentração de assuntos mais importantes. Refreia não o meu cavalo, mas o olhar do meu coração”.

Tagasta, embora próxima ao mar e a um rio navegável, era cruzada por rotas terrestres importantes, o que implica que Agostinho viu em suas ruas tanto faces berberes do deserto quanto feições semitas dos antigos colonizadores fenícios da África ( Perler 120-21). Mais tarde, ele se maravilharia com a capacidade de Deus de diferenciar as pessoas usando os mesmos traços limitados dos olhos, nariz e boca.

Assim como outros mediterrâneos, os cidadãos de Tagasta esquivavam-se do calor do meio-dia e se demoravam cultivando a sociabilidade noite a dentro. Quando fez 16 anos, Agostinho relata, ele e seus amigos perambulavam pelas ruas procurando barulho depois que a noite caía, e poupavam suas piores galhofas para depois da meia-noite. Mais isso foi depois que retornou de Madaura.

Não perca o próximo artigo Madaura – ( 366-370).

Sábado, Julho 29, 2006

Agostinho e as Conseqüências da Queda

Philip Schaff lista oito conseqüências distintas da queda desenvolvidas por Agostinho. Nós as pesquisaremos com observações.

Primeira, a própria queda. Desde que o homem foi criado com a posse peccare, ele teve a capacidade para cair desde o começo. Ele foi criado bom, mas também mutável. Esta possibilidade de pecar foi mais tarde chamada por Karl Barth como “possibilidade impossível.” Esta, obviamente, é uma declaração absurda, uma contradição veraz de termos. Desde que Barth não se preocupava com as contradições, não achou dificuldade em usar esta frase. Mas talvez tenha usado deliberadamente esta contradição dissonante como um artifício literário para mostrar a incompreensibilidade de uma boa criatura cair em pecado. A queda é uma irracionalidade manifesta.

Para Agostinho, a severidade da queda é vista através de seu contraste severo com a sublimidade da condição original do homem. A palavra queda dificilmente faz justiça à idéia de salto das alturas exaltadas para a profundidade abismal. Schaff comenta: “A queda de Adão apresenta-se como a maior e a mais digna de castigo se considerarmos, primeiramente, a altura que ele ocupava, a imagem divina na qual foi criado; então, a simplicidade do mandamento, e [a] tranqüilidade de obedecê-lo, na abundância de todos os tipos de frutos no paraíso; e, finalmente, a sanção do mais terrível castigo do seu Criador e mais formidável Benfeitor.”

A segunda conseqüência do pecado é a perda da liberdade. Desde que essa dimensão do pensamento de Agostinho é tão crítica à toda a controvérsia sobre o livre arbítrio, nós a desenvolveremos de forma mais completa mais tarde. Por ora, diremos rapidamente que algo desastroso aconteceu à vontade humana como resultado da queda. Na criação, o homem tinha uma inclinação positiva para o bem e para amar a Deus. Embora fosse possível que o homem pecasse, não havia necessidade moral para que assim agisse. Como resultado da queda, o homem passou a ser escravo do mal. A vontade caída tornou-se uma fonte de mal no lugar de uma fonte do bem.

A terceira conseqüência do pecado é a obstrução do conhecimento. A capacidade intelectual do homem era muito maior na criação do que após a queda. As conseqüências da queda incluem o que os teólogos referem-se como os “efeitos intelectuais do pecado.” A palavra intelectual é derivada da palavra grega para “mente”, que é nous. Originalmente, a mente do homem podia absorver e analisar a informação muito melhor e mais acuradamente do que podemos agora. Ele podia entender a verdade corretamente, sem distorção. No entanto, o homem não era dotado por Deus com o atributo divino da onisciência. Este é um dos atributos “incomunicáveis” que Deus não pode de fato “comunicar” à criatura. Um ser onisciente, que tem uma compreensão infinita e eterna de toda a extensão da realidade, deve ser eterno e infinito. Consequentemente
, Adão tinha um limite no seu conhecimento dotado e estava sobre uma curva de aprendizado desde o início. No entanto, sua capacidade para aprender não era obstruída pelo pecado original. Na criação, o processo de aprendizado era fácil. A mente do homem não estava obscurecida pelo pecado.

Depois da queda, o homem ainda possui uma mente. Ele ainda pode pensar. Ainda pode raciocinar. Ele não perdeu a faculdade da mente. A faculdade permanece; a facilidade está perdida. O que foi fácil uma vez, agora é difícil. Nossa habilidade para raciocinar foi claramente afetada. Somos agora inclinados para o pensamento confuso e para cometer erros lógicos. Fazemos inferências ilegítimas a partir de dados e cometemos falácias lógicas. Nossos argumentos não são sempre sadios.

Dois fatores principais estão envolvidos aqui. O primeiro é o enfraquecimento do poder da mente e de sua faculdade de pensamento. O segundo é a influência negativa da predisposição pecaminosa e do preconceito, especialmente com relação ao nosso entendimento do bem e de Deus. A Escritura fala das nossas mentes sendo “obscurecidas” e “réprobas.” Recusamos ter Deus em nosso pensamento. Isto não é um lapso mental isolado mas um lapso moral ao extremo.

Há uma analogia entre a função da mente e a função do corpo após a queda. Ainda temos corpos que exibem força física. O corpo ainda trabalha. Mas o trabalho do corpo agora é acompanhado de suor e fadiga. Semelhantemente, a mente ainda trabalha, mas o pensamento correto é laborioso para a mente.

A quarta conseqüência do pecado é a perda da graça de Deus. Na criação, Deus proveu o homem com um adjutorium , uma assistência graciosa certa para o bem. Após a queda, Deus retirou da criatura esta graça assistente. Em um sentido, o homem foi entregue ao pecado, para seguir os planos maus da sua mente. Seu coração é agora cheio de dolo e seus desejos são continuamente maus. Com certeza ainda permanece uma graça pela qual Deus, através da sua lei e providência, contém o mal humano. Ele o mantém em confronto até um certo ponto. Mas este freio divino não é a assistência positiva da graça para o bem mas um freio negativo do mal.

A quinta conseqüência do pecado é a perda do paraíso. Parte da maldição que se seguiu à queda foi a expulsão do Éden. Deus baniu Adão e Eva do jardim paraíso e colocou na entrada do Éden um sentinela angelical que empunhava uma espada flamejante. Este sentinela prevenia que Adão e Eva voltassem ao jardim. Consequentemente, o ambiente no qual eles gozavam da presença imediata de Deus e da comunhão com ele foi retirado. Com o exílio, veio também as maldições sobre a mulher (ela deveria experimentar dor ao dar à luz), sobre a serpente (esta iria rastejar no pó sobre o seu ventre), e sobre o homem (ele iria, com suor e fadiga, trabalhar o solo que resistiria aos seus esforços). O novo ambiente é marcado pela presença de ervas daninhas, espinhos e urzes. Não havia ervas daninhas no Jardim do Éden.

A sexta conseqüência é a presença da concupiscência. A noção da concupiscência, que aparece do começo ao fim dos escritos de Agostinho, envolve uma certa predileção para o que é sensual. Não é a própria sensualidade mas uma inclinação a ela. Envolve uma certa “tendência” ou inclinação da vontade em direção à lascívia da carne, e esta concupiscência guerreia contra o espírito. “Originalmente, o corpo era tão alegremente obediente ao espírito quanto o homem a Deus,” Schaff comenta. “Havia apenas uma vontade em exercício. Com a queda, esta harmonia bonita foi quebrada e o antagonismo, que Paulo descreve no sétimo capítulo da epístola aos Romanos, surgiu...logo, concupiscentia é substancialmente o mesmo que Paulo chama de 'carne' no mau sentido. Não é a constituição sensual em si mesma, mas sua predominância sobre a natureza mais alta e racional do homem...A concupiscência, então, não é algo meramente corpóreo mais do que o sarx bíblico, mas tem o seu lugar na alma, sem a qual nenhuma concupiscência surge.”

A sétima conseqüência do pecado é a morte física. Na criação, o homem tinha tanto a posse mori quanto a posse non mori , a capacidade para morrer ou para não morrer. Deus advertiu Adão de que se ele comesse do fruto proibido, morreria. Esta advertência foi negada pela serpente, que alegou que Adão e Eva não morreriam mas se tornariam como deuses.

Notamos rapidamente que Deus havia ameaçado a morte imediata: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Porém Adão e Eva não experimentaram a morte física (thanatos) no mesmo dia da sua transgressão. Isto tem levado alguns a concluírem que a penalidade “real” para o pecado foi a morte espiritual, a qual aconteceu imediatamente. Mas, para o texto e para Agostinho, o castigo para o pecado não foi limitado à morte espiritual. Ele incluía a morte física também, a qual Adão e Eva eventualmente experimentaram. Este foi o grande inimigo que Cristo mais tarde conquistaria para seu povo. Como um resultado da queda, a morte física é agora uma necessidade, não uma mera possibilidade.

Agostinho mencionou que para Adão e Eva, a morte física não foi totalmente adiada até que respirassem seu último fôlego. A morte física começou no momento em que transgrediram. A partir daquele momento, as ruínas da morte- envelhecimento, declínio físico e doenças- acompanharam a vida humana. Desde o pecado de Adão, cada bebê nasce em meio às dores de parto. Com as dores do parto e o primeiro choro do infante, o processo da morte é inaugurado. Toda a vida é parte deste processo. A vida marcha inexoravelmente em direção à sepultura. Este é o preço do pecado.

A oitava e última conseqüência do pecado é a culpa hereditária. O pecado original significa que o pecado não é meramente uma ação, mas também uma condição transmitida de nossos primeiros pais para cada um de nós. O pecado é um habitus, algo que “habita” a nossa natureza humana. Este estado, condição ou hábito de pecar continua através da procriação, de geração a geração. O pecado original é transmitido diretamente através do processo natural de geração humana? Ou Deus direta e imediatamente cria cada alma outra vez? Agostinho oscilava entre estas duas escolas de pensamento (conhecidas como traduciasnismo e criacionismo) porque ele pensava que a Escritura não respondia a questão de forma definitiva.

Estas conseqüências do pecado original são o que Pelágio achou tão odioso. Ele viu uma certa injustiça na descendência de Adão sendo afetada tão adversamente por causa das ações de Adão. Agostinho, por outro lado, considerava o pecado original como um castigo justo para Adão e para todos aqueles a quem ele representava. Ele escreve no The City of God :

O pecado [de nossos primeiros pais] foi um desprezo à autoridade de Deus. Deus criou o homem; ele o fez à sua própria imagem; ele o estabeleceu acima dos outros animais; ele o colocou no Paraíso; o enriqueceu com todo o tipo de abundância e segurança; não lhe impôs nem muitos, nem grandes nem difíceis mandamentos mas, a fim de tornar uma obediência sadia fácil para ele, lhe deu um único pequeno e leve preceito pelo qual lembraria à criatura, cujo serviço deveria ser livre, de que ele era Senhor. Consequentemente, foi justa a condenação que se seguiu e uma condenação tal que o homem, que através da manutenção dos mandamentos deveria ter sido espiritual até mesmo em sua carne, se tornou carnal até mesmo em seu espírito. E assim como em seu orgulho, ele buscou ser sua própria satisfação, Deus, em sua justiça, o abandonou em si mesmo, não para viver na independência absoluta que ansiava mas, no lugar da liberdade que desejava, para viver insatisfeito consigo mesmo em uma sujeição dura e miserável a quem, através do pecado, havia se submetido. Ele foi condenado, a despeito de si mesmo, a morrer em corpo assim como havia se tornado, por vontade própria, morto em espírito, condenado até mesmo à morte eterna (não tivesse a graça de Deus o libertado) porque havia renunciado à vida eterna. Qualquer um que pense que este castigo foi excessivo ou injusto, mostra a sua inabilidade para medir a grande iniquidade de pecar onde o pecado podia tão facilmente ser evitado.



O fato da controvérsia pelagiana ter surgido pouco tempo depois da controvérsia donatista, que envolvia o tema do batismo, é significante. O batismo de infantes veio para a dianteira na controvérsia pelagiana precisamente porque os pelagianos insistiam que os infantes nasciam livres do pecado original. Na igreja, o batismo para infantes geralmente considerava o envolvimento na remissão de pecados. Agostinho, que sustentava a noção de que o batismo se relacionava ao perdão do pecado original e da culpa, disse de Pelágio: “Se você perguntasse a ele qual é o pecado que ele supõe ser cancelado para eles, ele afirmaria que eles não tinham nenhum.”

Schaff observa: “...o batismo, de acordo com Agostinho, remove apenas a culpa (reatus) do pecado original, não o próprio pecado (concupiscentia). Na procriação, o agente não é o espírito regenerado, mas a natureza que ainda está sob o domínio da concupiscentia. 'Pais regenerados não produzem como filhos de Deus, mas como filhos do mundo'”.

A doutrina do pecado original é central para o entendimento de Agostinho tanto da graça quanto do livre arbítrio. O pecado original faz com que a graça seja necessária. O pecado original define a escravidão da vontade. A visão de alguém da graça e do livre arbítrio é inseparavelmente relacionada ao seu entendimento do pecado original. Aquele que adota a visão de Agostinho do pecado original é compelido a investigar o seu entendimento da graça e da vontade caída.

R. C. Sproul


Terça-feira, Julho 04, 2006

Sermão de Agostinho sobre a devastação de Roma

Introdução
(Para entender melhor o momento histórico)
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No ano 410, os vândalos chefiados por Alarico saquearam Roma. A ordem antiga estava chegando ao fim. Em breve, começaria uma nova época para a Europa, designada mais tarde pelos historiadores como a Idade Média.
Os romanos assistem ao desmoronamento de seu mundo. A própria continuidade da Igreja parece ameaçada. Agostinho (354-430), como cidadão romano e bispo de uma cidade romana do norte da África, Hipona (que poucos anos depois cairá igualmente nas mãos dos vândalos), não deixa de refletir sobre o trágico fato: uma primeira e emocionada reação de Agostinho é este sermão De urbis excidio, sobre a devastação da grande capital do Império.
As considerações de José Morán [1] ajudam-nos a compreender o alcance e a importância deste sermão: "Agostinho sobe ao púlpito angustiado pelo peso de uma grande responsabilidade histórica. E profere o sermão De urbis excidio, um dos mais patéticos e mais emocionantes de todos os tempos.
"Foi tal a depressão que esses acontecimentos causaram ao bispo, que ele se propôs desenvolver o programa traçado no De urbis excidio numa obra maior. De urbis excidio é a Cidade de Deus em escala menor, é uma maquete da Cidade de Deus: é um esboço potente, colorido, dramático das respostas de Agostinho.
"Neste célebre discurso, resumem-se as grandes idéias que serão expostas ao longo dos 22 livros da Cidade de Deus. Os graves problemas tratados nesta famosíssima homilia são os mesmos que ressoarão mais tarde na tribuna da História. Deus, com freqüência, prova justos e pecadores: uns para provação; outros, para castigo; mas Deus é sempre justo. Agostinho recorre às Escrituras. Analisa os exemplos de Jó, Abraão, Daniel e Noé. Faz outras mil piruetas retóricas com argumentos piedosos e crus em sua maior parte. Recorre, por fim, ao
modelo, a Cristo, como recurso máximo do sofrimento paciente".
No texto abaixo [2] , do qual não foram transcritos alguns trechos menos importantes, destaquem-se - do ponto de vista lógico - as passagens em que Agostinho faz a sutil distinção semântica entre "poupar" e "perder"; e a discussão sobre o que é uma cidade: homens ou edifícios? Do ponto de vista estético, chamemos especialmente a atenção para as grandiosas contraposições a propósito da mulher de Jó (fim da parte III - começo da IV) e a comparação da devastação de Roma com a debulhadora e o fogo (parte VIII).
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Sermão de S. Agostinho sobre a devastação de Roma
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I
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Consideremos, irmãos, a primeira leitura, a do santo profeta Daniel. Nela, ouvimo-lo rezando e nos surpreendemos ao vê-lo não só confessar os pecados de seu povo, mas também os seus próprios. A oração dele é, não só uma oração de petição, mas também de confissão, pois, depois de orar, ele diz: "Enquanto eu rezava e confessava a Deus os meus pecados e os pecados de meu povo..." (Dan 9,20). Quem, pois, poderá declarar-se sem pecado, quando até Daniel confessa seus próprios pecados?
Daniel, de quem foi dito pelo profeta Ezequiel a um certo soberbo: "Acaso és tu mais sábio do que Daniel?" (Ez 28, 3).
Daniel, incluído entre aqueles três santos que representam os três tipos de homens que Deus vai salvar quando sobrevier a grande tribulação ao gênero humano. E Deus diz que ninguém se salvará, exceto Noé, Daniel e Jó [3] . E é claro que por esses três nomes, como disse, Deus designa três tipos de homens. Pois esses três citados já dormiam, seus espíritos já estavam diante de Deus e seus corpos já se tinham feito pó; já estavam esperando a ressurreição - quando se situarão à direita do Senhor - e já não podiam ser afetados por nenhuma tribulação deste mundo, nem temê-las, nem ansiar por se livrar delas.
Como então se diz que daquela tribulação serão salvos Noé, Daniel e Jó? Quando Ezequiel dizia essas palavras só Daniel estava, talvez, ainda nesta vida. Pois Noé e Jó, estes com certeza, já há tempo dormiam e acompanhavam os ancestrais no sono da morte. Como então se fala de livrá-los de uma iminente tribulação, se já há tempo estavam libertos da carne? É que Noé aqui representa os bons governantes, que regem e governam a Igreja, como Noé governou a arca no dilúvio; Daniel significa todos os santos continentes; e Jó, todos os que vivem bem e santamente no matrimônio.
Esses são os três tipos de homens que Deus salva daquela tribulação. Contudo, quão especial é Daniel! No texto que citei (Ez 28,3), dos três, só ele é nomeado! E, no entanto, ele confessa seus pecados. Quando até Daniel confessa seus pecados que soberba não estremecerá, que vaidade não se esvaziará, que arrogância não se coibirá? "Quem se gloriará de ter um coração puro, de estar limpo de pecado?" (Prov 20,9).
*
II
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E os homens se admiram - e oxalá ficassem só na admiração, ao invés de também blasfemarem - quando Deus corrige o gênero humano e envia o misericordioso flagelo do castigo, para que os homens se emendem antes do dia do juízo. E o faz, em geral, sem escolher os que prova, pois não quer que ninguém se perca. Atinge, pois, indistintamente, pecadores e justos; ainda que ninguém possa considerar-se justo, pois até Daniel confessa seus próprios pecados.
Irmãos, líamos há alguns dias uma passagem que, se não me engano, chamou-nos muito a atenção. É aquela passagem do Gênesis [4] em que Abraão pergunta ao Senhor se pouparia a cidade se nela encontrasse cinqüenta justos ou se, pelo contrário, a perderia [5] com eles (Gên 18,24).
O Senhor lhe responde que, se encontrar cinqüenta justos, poupará a cidade. E Abraão prossegue interrogando a Deus sobre o caso de serem cinco a menos, quarenta e cinco. Deus responde que pouparia a cidade por causa desses quarenta e cinco. E assim vai Abraão interrogando a Deus, diminuindo pouco a pouco, até chegar a dez, e pergunta ao Senhor se, havendo dez justos na cidade, Ele os perderia com a incontável multidão dos maus ou se por causa desses dez justos pouparia a cidade. Deus responde que também por dez justos não se perderia a cidade.
Que vamos dizer, então, irmãos? Temos diante de nós uma questão grave e importante, especialmente porque somos insidiosamente interpelados por homens que lêem a Escritura com espírito ímpio e dizem, principalmente a propósito da recente devastação de Roma: "Será que havia em Roma cinqüenta justos?"
Ora, irmãos, será que entre tantos fiéis, tantas religiosas, tantos homens e mulheres dedicados ao serviço de Deus, não se podia encontrar cinqüenta justos, nem quarenta, nem trinta, nem vinte, nem dez?
Sendo isto inverossímil, por que então Deus não poupou a cidade por causa de dez justos? A Escritura não engana o homem, se ele não se engana. Trata-se aqui de justiça e Deus responde pela justiça: trata-se do homem que é justo segundo a medida divina e não segundo a medida humana. E respondo prontamente. Das duas, uma: ou Deus encontrou o número de justos e poupou a cidade; ou, se Ele não poupou a cidade, é porque não encontrou justos.
Mas, respondei-me: será assim tão evidente que Deus não poupou a cidade? Eu mesmo respondo: a meu ver, muito pelo contrário. A cidade não foi destruída como o foi Sodoma. Quando Abraão interrogou a Deus era a existência de Sodoma que estava em jogo. E Deus disse: "Não destruirei a cidade", mas Ele não disse: "Não castigarei a cidade".
Sodoma não foi poupada; perdeu-se. O fogo consumiu-a totalmente, sem esperar o dia do juízo; Ele fez com ela o que tem reservado para os outros maus no dia do juízo. Ninguém escapou de Sodoma; não sobrou nada dos homens, nem dos animais, nem das casas: tudo foi consumido pelo fogo. Este foi o modo pelo qual Deus perdeu a cidade.
Já quanto à cidade de Roma, é tudo diferente: muitos dela saíram e depois voltaram; muitos permaneceram e escaparam à morte e muitos ficaram incólumes por terem se refugiado nos santuários.
Mas - objetar-me-eis -, muitos foram levados como prisioneiros. Respondo: tal como Daniel, não em castigo próprio, mas para consolo de outros prisioneiros.
Mas - podeis me argüir -, muitos foram mortos. Respondo: o mesmo aconteceu com o sangue derramado pelos santos profetas, desde Abel a Zacarias (Mt 23,35); assim também foram tratados tantos apóstolos e até o próprio Senhor dos profetas e dos apóstolos.
Mas - objetar-me-eis ainda -, não foram muitos torturados com terríveis tormentos? Respondo: Será que tanto como Jó? [6]
Não, irmãos, não nego o que ocorreu em Roma. Coisas horríveis nos são anunciadas: devastação, incêndios, rapinas, mortes e tormentos de homens. É verdade. Ouvimos muitos relatos, gememos e muito choramos por tudo isso, não podemos consolar-nos ante tantas desgraças que se abateram sobre a cidade.
*
III
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No entanto, meus irmãos (que vossa caridade preste especial atenção às minhas palavras), ouvimos a leitura do santo Jó, que perdeu tudo: os bens e os filhos. E até a própria carne - a única coisa que lhe restava - não lhe ficou sã, mas coberta por uma chaga da cabeça aos pés. Ele sentava-se no esterco, com as feridas podres, sofrendo a corrupção do corpo, cheio de vermes, torturado por tormentos insuportáveis (Jó 2,7). Se nos tivesse sido anunciado que toda a cidade de Roma, vejam bem: a cidade toda, esteve sentada como Jó, sem nada são, com uma chaga terrível, comida pelos vermes, podre como os mortos, não seria isto mais grave do que aquela guerra?
Penso que é mais tolerável sofrer a espada do que os vermes; jorrar o sangue do que destilar a podridão. Quando vemos um cadáver corrompendo-se, horrorizamo-nos; mas isso é atenuado pelo fato de estar ausente a alma. Jó, porém, sofreu a corrupção em vida, com a alma presente à dor, a alma atada ao sofrimento, inclinada a blasfemar. E Jó suportou a tribulação e, por isso, elevou-se a uma santidade grande. Não importa o que um homem sofra, mas como ele se comporta no sofrimento. Ó homem, não está em tua mão sofrer ou não sofrer, mas sim se no sofrimento tua vontade se degrada ou se dignifica.
Jó sofreu. Só sua mulher lhe foi deixada e isso não para consolação mas para tentação; não para lhe suavizar os males, mas para aconselhá-lo a blasfemar: "Amaldiçoa a Deus, diz-lhe, e morre!". Vejam como, para ele, morrer seria um benefício, mas esse benefício ninguém lho dava.
Todas as aflições que esse santo sofreu exercitaram-lhe a paciência, provaram-lhe a fé para refutar a mulher e vencer o diabo. Que grande espetáculo! Em meio da infecta podridão, brilha a beleza da virtude. Um inimigo oculto [7] , que corrói seu corpo e uma inimiga manifesta que o quer induzir ao mal, mais companheira do diabo do que de seu marido; ela, uma nova Eva, mas ele, não já um velho Adão. "Amaldiçoa a Deus e morre!". Arranca com a blasfêmia o que ( [8] ) não podes obter com tuas preces. "Falaste, responde-lhe Jó, como uma mulher insensata" (Jó 2,10). Reparai bem nas palavras desse forte na fé; desse que está podre por fora, mas íntegro por dentro.
"Falaste como uma mulher insensata. Se recebemos os bens das mãos de Deus, por que não receber os males?". Deus é pai, e acaso havemos de amá-lo só quando nos agrada e rejeitá-lo quando nos corrige? Acaso não é Pai tanto quando nos promete a vida como quando nos disciplina? Esquecemo-nos do Eclesiástico (2,1,4 e 5)?: "Filho, quando te aproximas do serviço de Deus, permanece na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação. Aceita o que vier e suporta a dor, e na tua humilhação guarda a paciência. Porque o ouro e a prata se provam pelo fogo, mas os homens se tornam gratos a Deus pelo cadinho da humilhação". Esquecemo-nos da Escritura? (Prov 3,12; Hbr 12,6): "Deus repreende aquele a quem ama; e castiga a quem reconhece como filho".
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IV
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Imaginemos todos os tormentos, todas as dores que um homem possa sofrer nesta vida, e agora comparemo-las às do inferno, e veremos que aquelas são leves. Estas são temporais; aquelas, eternas: tanto quanto ao torturado como quanto ao torturador. Acaso estão ainda sofrendo aqueles que sucumbiram ao saque de Roma? O rico epulão ( [9] ), no entanto, sofre eternamente as penas do inferno. Ele ardeu, arde e arderá vivo até o dia do juízo, quando recobrar a carne, não para seu benefício, mas para seu suplício. Essas são as penas que devemos temer, se tememos a Deus. Tudo o que nesta vida possa um homem sofrer, se ele o aproveita para se corrigir, é para o seu bem; senão é duplamente condenado: aqui, sofre as penas temporais; no além, pagará as eternas.
Que vossa caridade, irmãos, me escute: certamente louvamos, glorificamos e admiramos os santos mártires; celebramos piedosamente os dias de suas festas; veneramos os seus méritos, e, na medida do possível, os imitamos. Sim, sem dúvida é grande a glória dos mártires, mas não sei se a glória do santo Jó é menor. Ainda que a Jó não fosse dito: "Oferece incenso aos ídolos!", "Sacrifica aos deuses estrangeiros!", "Nega a Cristo!"; foi-lhe dito, no entanto: "Blasfema de Deus!". Não que lhe tenha sido proposto: "Se blasfemares não terás mais essa podridão e tua saúde voltará"; mas sim: "Se blasfemares - dizia aquela mulher inepta e insensata -, morrerás e, morrendo, não terás já tormentos". Como se ao que morre blasfemando não lhe sobreviesse a dor eterna. Aquela mulher fátua tinha horror à podridão presente, mas não considerava o fogo eterno.
E Jó suportava aqueles males presentes, evitando cair nos futuros. Guardava o coração dos maus pensamentos; a língua, da maldição; conservava a integridade da alma na podridão do corpo. Via do que escapava no futuro ( [10] ) e assim suportava o que sofria.
É desse modo, sim, é desse modo que todo cristão, quando padece aflições corporais na vida presente, deve considerar a geena e reparar em quão leve é o que sofre. Não murmure contra Deus, não diga: "Que te fiz eu, ó Deus, por que estou sofrendo?" Antes diga o que disse Jó, embora ele fosse santo: "Encontraste todos os meus pecados e os reunistes diante de Ti". Não ousou proclamar-se sem pecado quando sofria, não para ser punido mas para ser aprovado. Também assim fale cada um quando padecer (...).
*
VI
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Ah! Se nossos olhos pudessem ver as almas dos santos que nessa guerra foram mortos, veríeis como Deus poupou a cidade. Pois milhares de santos descansam em paz, felizes, e dizem a Deus: "Nós Vos damos graças porque nos livrastes das tribulações da carne e dos tormentos. Nós Vos damos graças porque já não tememos os bárbaros, nem o diabo, nem a fome, nem a tempestade, nem os inimigos, nem os tribunais perseguidores da fé, nem os opressores. Estamos mortos na terra, mas imortais ante Vós, salvos no Vosso reino, por graça Vossa e não por mérito nosso".
Qual a cidade que, em sua humildade, fala desse modo? Ou porventura considerais que uma cidade é feita de pedras e de paredes? A cidade são os homens e não as casas! Se Deus tivesse dito aos habitantes de Sodoma: "Fugi, pois vou incendiar este lugar", não lhes atribuiríamos mais mérito se fugissem e o fogo do céu destruísse somente suas muralhas e suas casas? Não teria Deus poupado a cidade, se os cidadãos tivessem escapado aos efeitos devastadores daquele fogo? (...)
*
VIII
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Oxalá tivéssemos um saudável temor e refreássemos a má concupiscência sequiosa do mundo, que apetece o gozo volúvel do que é pernicioso, perante os sinais com que Deus nos mostra a instabilidade e a caducidade de todas as vaidades do mundo e da mentira de suas loucuras. Aproveitemos esses sinais, em vez de ficarmos murmurando contra o Senhor.
Por acaso a debulhadora que lança ao ar a espiga para que se quebre não é a mesma que faz sair o grão puro? E o fogo que alimenta a fornalha do ourives e purifica o ouro das impurezas, não é o mesmo que consome a palha? Assim também a tribulação de Roma serviu para a purificação ou salvação do justo e para a condenação do ímpio: arrebatado desta vida para, com toda a justiça, sofrer mais penas; ou, permanecendo nesta terra, para tornar-se um blasfemador mais culpável. Ou ainda, pela inefável clemência de Deus, poupando para a penitência aqueles que, por ela, hão de salvar-se. Não nos confunda a tribulação que os justos sofrem; é uma provação, não a condenação.
Não nos escandalizemos ao ver o justo nesta terra sofrer agravos e ultrajes: acaso esquecemos o que passou o justo dos justos, o santo dos santos? O que sofreu toda a cidade de Roma, sofreu Ele sozinho. E vede quem Ele é: "O rei dos reis, o senhor dos senhores" (Apoc 19,16), preso, amarrado, flagelado, objeto de todas as ofensas, suspenso num madeiro e pregado, morto. Comparemos Roma com Cristo; a terra inteira com Cristo, o céu e a terra com Cristo; nenhuma criatura pode ser comparada ao Criador; nenhuma obra ao artífice : "Todas as coisas foram por Ele feitas, e sem Ele nada foi feito" (Jo 1,3). E, no entanto, foi tido pelos verdugos em nada.
Suportemos o que Deus quer que suportemos; Ele, que é o médico que nos cura e nos salva, sabe o que é útil para nós, mesmo que seja a dor. Como bem sabeis, está escrito "A paciência produz uma obra perfeita" (Tg 1,4). Ora, qual será a obra de nossa paciência se não sofrermos nenhuma adversidade? Por que recusamos sofrer os males temporais? Temos medo de nos aperfeiçoar? Não hesitemos em orar e implorar, gemendo e chorando diante do Senhor, para que, também em relação a nós, se cumpra o que diz o Apóstolo: "Fiel é Deus e não permitirá que sejais provados acima de vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela" (I Cor. 10, 13).

NOTAS:
[1] . San Agustin, Ciudad de Dios, Introducción general, Madrid, BAC, 1964, p. XVI.
[2] . Traduzido a partir do original latino apresentado na edição das obras completas (tomo XXII) feita por Péronne, Écalle e Charpentier, Paris, Louis Vivès, 1870.
[3] . "Se eu enviasse a peste sobre a terra, e fizesse cair sobre ela o meu furor no sangue, exterminando homens e feras, e se Noé, Daniel e Jó se encontrassem aí, - por minha vida, oráculo do Senhor Javé - não poderiam eles garantir por sua justiça nem seus filhos nem suas filhas, mas somente a sua própria vida" (Ez 14,19-20).
[4] . Gênesis, cap. 18. "O Senhor disse a Abraão: <<É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande>>. (...) Abraão disse: <>.
[5] . Toda a argumentação de Agostinho vai girar em torno da discussão semântica: o que é poupar/ perder (parcere X perdere) uma cidade.
[6] . Um dia, Satanás desafiou Deus: "Jó é bom servo teu porque o abençoas com muitos bens. Mas toca-o em seus bens; eu juro-te que ele te amaldiçoará". Deus aceitou e deu poder a Satanás para arruinar Jó. E assim, de repente, morrem-lhe os filhos e os rebanhos. E Jó não blasfema. Satanás pede a Deus mais poder, desta vez para ferir o próprio Jó com uma lepra maligna. E Jó, sentado sobre o esterco e coçando-se com um caco de telha, não blasfema. (cfr. Livro de Jó, caps. I e II).
[7] . Os vermes.
[8] . A morte.
[9] Lc 16,19 e ss.: "Jesus disse-lhes a seguinte parábola: <>".
[10] . Há, em latim, um jogo de palavras: Videbat quid in futurum evadebat.

Segunda-feira, Junho 26, 2006

A Vocação dos Eleitos - Agostinho

Procuremos entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor revela a existência desta classe de vocação ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15: 16). Pois, se fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e assim merecerem ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que diz: Não fostes vós que me escolhestes.
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Não há dúvida que eles também o escolheram, quando nele acreditaram. Daí o ter ele dito: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, não porque não o escolheram para ser escolhidos, mas para que o escolhessem, ele os escolheu. Isso porque a misericórdia se lhes antecipou (Sl 53:11) segundo a graça, não segundo uma dívida. Portanto, retirou-os do mundo quando ele vivia no mundo, mas já eram eleitos em si mesmos antes da criação do mundo.
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Esta é a imutável verdade da predestinação da graça. Pois, o que quis dizer o Apóstolo: Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo?(Ef 1:4). Com efeito, se de fato está escrito que Deus soube de antemão os que haveriam de crer, e não que os haveria de fazer que cressem, o Filho fala contra esta presciência ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi. Isto daria a entender que Deus sabia de antemão que eles o escolheriam para merecerem ser escolhidos por ele.
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Conseqüentemente, foram escolhidos antes da criação do mundo mediante a predestinação na qual Deus sabia de antemão todas as suas futuras obras, mas são retirados do mundo com a vocação com que Deus cumpriu o que predestinou. Pois, o que predestinou, também os chamou com a vocação segundo seu desígnio. Chamou os que predestinou e não a outros; predestinou os que chamou, justificou e glorificou (Rm 8:30) e não a outros com a consecução daquele fim que não tem fim.
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Portanto, Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram. Diz o apóstolo Tiago: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? (Tg 2:5). Portanto, ao escolher, fá-los ricos na fé, assim como herdeiros do Reino. Pois, com razão, se diz que Deus escolheu nos que crêem aquilo pelo qual os escolheu para neles realizá-lo.
*
Pergunto: quem ouvir o Senhor, que diz: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, terá atrevimento de dizer que os homens têm fé para ser escolhidos, quando a verdade é que são escolhidos para crer? A não ser que se ponham contra a sentença da Verdade e digam que escolheram antes a Cristo aqueles aos quais ele disse: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.

Terça-feira, Maio 30, 2006

Sermão sobre o Filho Pródigo - Agostinho

Dentre os inúmeros sermões de Agostinho que chegaram até nós, vale a pena conhecer o 112A, pela beleza do tema que aborda: a parábola do filho pródigo, a paternal misericórdia de Deus para com a fraqueza humana.
Neste sermão, proferido em dezembro de 399 como continuação de um outro, inacabado, do domingo anterior, Agostinho trata principalmente do arrependimento humano e do perdão de Deus. Nos tópicos finais, discute também o problema do judaísmo perante o cristianismo e, nesse sentido, é fascinante observar a facilidade e a pertinência com que relaciona a parábola com Isaías e com diversos salmos (partes IV e VI).
Certamente, o objetivo de Agostinho é pastoral. Interessa-lhe em primeiro lugar que a pregação desperte interesse, convença e seja lembrada pelo povo. É em função desse primeiro objetivo que ele cultiva o estético. Valendo-se das artes da palavra, que domina como ninguém, veicula a verdade não só pela lógica mas também pela beleza.
Seu talento para a metáfora e para a alegoria ( [1] ) atinge o auge quando, na parte VI, após lançar o ouvinte num paradoxo aparentemente insolúvel, e criando um clima de autêntico suspense, resolve o impasse com a comparação das aves, num dos mais empolgantes momentos na oratória de todos os tempos.
Ao elaborar esses sermões, obras-primas de conteúdo e forma, Agostinho - ele mesmo no-lo diz no começo do texto - considera a sua tarefa de pregador como uma tarefa de amor e de entrega.
Apresento aqui a tradução ( [2] ) praticamente completa das primeiras partes (I a VII), por serem de extrema atualidade, e um resumo do restante do texto no final.


Sermão de S. Agostinho sobre o Filho Pródigo.
"Disse Jesus: Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte do patrimônio que me toca. O pai então repartiu entre eles os haveres. Poucos dias depois ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou sua herança vivendo dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome: e ele começou a passar penúria. Foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Entrando então em si e refletiu: <>. Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse então: <>. Mas o pai disse aos servos: <>. E começaram a festa...
I
Não é necessário determo-nos em assunto de que já tratamos; mas se não é o caso de nos demorarmos, sim o é de rememorarmos ( [3] ). Vossa prudência ainda lembra que no domingo passado comentei a parábola, lida no Evangelho de hoje, a do filho pródigo, comentário que no entanto não pude concluir. Deus Nosso Senhor quis, porém, que, passada aquela tribulação ( [4] ), possamos hoje continuar a falar.
Sinto-me obrigado a pagar a dívida do sermão, porque as dívidas de amor sempre devem ser pagas. Assista-me Deus para que meus poucos recursos possam satisfazer a vossa expectativa.
II
O homem que tem dois filhos é Deus que tem dois povos: o filho mais velho é o povo judeu; o menor, os gentios.
O patrimônio que este recebeu do Pai é a inteligência, a mente, a memória, o engenho e tudo o que Deus nos deu para que O conhecêssemos e Lhe déssemos culto. Tendo recebido este patrimônio, o filho menor "partiu para um país muito distante". Distância significa: o esquecimento de seu Criador. "Dissipou sua herança vivendo dissolutamente": gastando e não ajuntando; malbaratando tudo o que tinha e não adquirindo o que não tinha, isto é, consumindo toda sua capacidade em luxúria, em ídolos, em todo tipo de desejos perversos, aos que a Verdade denominou meretrizes.
III
Não é de admirar que essa orgia acabasse em fome. "Sobreveio àquela região uma grande fome"; fome não de pão visível mas da verdade invisível. E, por causa da fome, "foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região": entenda-se o diabo, o senhor dos demônios, sob cujo poder caem todos os curiosos ( [5] ), pois a curiositas é o pestilento abandono da verdade.
À margem de Deus, por entregar-se a seus próprios recursos, foi submetido à servidão e lhe tocou o ofício de apascentar porcos, o que significa a servidão mais extrema e imunda que costuma alegrar os demônios: não foi por acaso que o Senhor, quando expulsou a legião dos demônios, permitiu que entrassem na piara de porcos.
Alimentava-se então das vagens de porcos sem poder saciar-se. Vagens são as vistosas doutrinas do mundo: servem para ostentar mas não para sustentar ( [6] ); alimento digno para porcos, mas não para homens: próprias para dar aos demônios deleitação, mas não aos fiéis justificação.
IV
Até que, por fim, tomou consciência do lugar em que tinha caído; do quanto tinha perdido; Quem tinha ofendido e a quem se tinha submetido. Reparai no que diz o Evangelho: "Entrando em si..."; primeiramente, voltou-se para si e só assim pôde voltar para o pai. Dizia talvez: "O meu coração me abandonou (isto é: saí de mim mesmo)" (Sl 40,13) ( [7] ); daí que fosse necessário, antes, voltar para si mesmo e assim perceber que se encontrava longe do pai. É o que diz a Escritura quando increpa a alguns, dizendo: "Voltai, pecadores, ao coração! (isto é: voltai, pecadores, a vós mesmos!)" (Is 46,8). Voltando para si mesmo, encontrou-se miserável: "Encontrei, diz ele, a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor" (Sl 116,3-4). "Quantos empregados, diz ele, há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome!" (...)
V
Levantou-se e voltou. Ele, caído por terra depois de contínuos tropeços. O pai o vê ao longe e sai-lhe ao encontro. É dele que fala o Salmo: "Entendeste meus pensamentos de longe" (Sl 139,2). Que pensamentos? Aqueles que o filho tinha em seu interior: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados". Ele ainda nada tinha dito, só pensava em dizer. O pai, porém, ouvia como se o filho já o estivesse dizendo.
Por vezes, em meio a uma tribulação ou tentação, alguém pensa em orar, e, no próprio ato de pensar o que irá dizer a Deus na oração, considera que é filho e que, como tal, tem direito a reivindicar a misericórdia do Pai. E diz de si para si: "Direi a meu Deus isto e aquilo; não temo que, em lhe dizendo isto, e chorando, não seja eu atendido pelo meu Deus". Geralmente, Deus já o está atendendo quando ele diz estas coisas; e mesmo antes, quando as cogita, pois mesmo o pensamento não está oculto ao olhar de Deus. Quando o homem delibera orar, já lá está Aquele que lá estará quando ele começar a oração.
E assim se diz em outro Salmo: "Eu disse: confessarei minha iniqüidade ao Senhor" (Sl 32,5). Vede como se trata ainda de algo interior a ele, de um mero projeto e, contudo, acrescenta imediatamente: "E tu já perdoaste a impiedade de meu coração" (Sl 32,5). Quão próxima está a misericórdia de Deus daquele que se confessa! Não, Deus não está longe de quem tem um coração contrito, como está escrito: "Deus está próximo dos que trituram seu coração" (Sl 34,19). E neste triturar seu coração no país da penúria, retornava ao coração para moê-lo. Soberbo, abandonara seu coração; irado com santa indignação ( [8] ), a ele retorna.
Indignou-se contra si mesmo, contra o mal que há em si, para se emendar; retornou para merecer o bem do pai. Indignou-se conforme a sentença: "Irai-vos para não pecar" (Sl 4,5). Pois quem está arrependido fica irado e, por estar indignado consigo mesmo, se pune.
Daí surgem aquelas práticas próprias do penitente que verdadeiramente se arrepende, verdadeiramente se dói, sente ira contra si mesmo. Certamente, é indício dessa ira o bater no peito: o que a mão faz externamente, a consciência o faz internamente: golpeia-se nos pensamentos, ou melhor, produz a morte em si mesmo ( [9] ). E, matando-se, oferece a Deus o "sacrifício de um espírito atribulado. Deus não despreza um coração contrito e humilhado" (Sl 51,19). E, assim, raspando, quebrando, humilhando seu coração, leva-o à morte.
VI
Embora tivesse ainda somente a disposição de falar ao pai, cogitando em seu interior: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei...", o pai, que de longe já conhece essas cogitações, foi ao seu encontro.
Que significa "ir ao encontro" senão antecipar-se pela misericórdia? Pois, "estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro". Por que foi movido pela misericórdia? Porque o filho tinha confessado sua miséria. "E correndo-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço", isto é, pôs o braço sobre o pescoço dele.
Ora, o braço do Pai é o Filho: deu-lhe, portanto, Cristo para carregar: uma carga que não pesa, mas alivia. "Meu jugo é suave, diz Cristo, e meu fardo é leve" (Mt 11,30). Ele se apoiava sobre o que estava de pé e, por apoiar-se, impedia-o de tornar a cair. Tão leve é o fardo de Cristo que não só não pesa, mas, pelo contrário, até ergue.
Não que o fardo de Cristo seja uma carga dessas que se chamam leves (não há carga, por mais leve que seja, que não tenha algum peso). Pode-se carregar um fardo pesado, um fardo leve ou, ainda, não carregar fardo algum. Anda oprimido quem carrega fardo pesado; menos oprimido quem leva uma carga leve (embora também ande oprimido); com os ombros totalmente desembaraçados, quem não carrega fardo algum. Não é dessa ordem o fardo de Cristo, mas um fardo tal que convém ( [10] ) carregá-lo para sentir-se aliviado; se nos desvencilharmos dele, mais carregados nos sentiremos.
E que esta nossa afirmação, irmãos, não vos pareça absurda! Talvez encontremos alguma comparação que vos torne plausível, até em termos de nossa experiência sensível, o que estou dizendo. Um caso, também ele, espantoso e totalmente incrível.
É o seguinte: considerai as aves. Toda ave carrega o peso de suas asas: não reparastes como, quando descem ao chão, recolhem as asas para poder descansar e como que as levam nos costados? Julgais que estão oprimidas pelo peso das asas? Tirai-lhe este peso e cairão: quanto menos pesarem as asas, menos pode a ave voar.
Alguém que, a título de misericórdia, as privasse deste peso, não estaria sendo misericordioso. A verdadeira misericórdia está em poupar-lhes esta privação e, se já perderam as asas, em dar-lhes alimento para que readquiram asas pesadas e possam arrancar-se da terra e voar. É bem este o peso que desejava o salmista: "Quem me dará asas como as da pomba para que eu voe e encontre meu repouso?" (Sl 55,7)
Assim, o peso do braço do pai sobre o pescoço do filho não o carregou, mas o aliviou; foi-lhe honroso e não oneroso ( [11] ). Como é, pois, o homem capaz de carregar consigo a Deus se não é porque o está carregando, o Deus que ele carrega? ( [12] ).
VII
E o pai ordena que o vistam com a primeira veste, aquela que Adão perdera ao pecar. Tendo recebido o filho em paz, tendo-o beijado, ordena que lhe dêem uma veste: a esperança de imortalidade, conferida no batismo. Ordena que lhe dêem um anel, penhor do Espírito Santo; calçado para os pés, como preparação para o anúncio do Evangelho da paz, para que sejam formosos os pés dos que anunciam a boa nova ( [13] ).
Estas coisas Deus faz através de seus servos, isto é, os ministros da Igreja. Acaso eles podem, por si próprios, dar veste, anel e calçados? Não, apenas cumprem seu ministério, desempenham seu ofício; quem dá é Aquele de cujo depósito e de cujo tesouro são extraídos estes dons.
Mandou também matar o bezerro cevado, isto é, que fosse admitido à mesa em que o alimento é Cristo morto. Mata-se o bezerro para todo aquele que, de longe, vem para a Igreja, na qual se prega a morte de Cristo e no Seu corpo o que vem é admitido. Mata-se o bezerro cevado porque o que se tinha perdido foi encontrado.
VIII - Resumo e trechos do final do Sermão 112A
"O filho mais velho estava no campo. Ao voltar e aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um servo e perguntou-lhe o que havia. Ele lhe explicou: <>. Encolerizou-se ele e não queria entrar; mas seu pai saiu e insistiu com ele. Ele, então, respondeu ao pai: <> Explicou-lhe o pai: <>."
Meer resume assim o final do sermão:
"Agostinho compara os judeus ao filho mais velho, que, à volta do irmão, se aborrece com o banquete e o bezerro cevado. Os judeus se aborrecem com a precedência dada aos pagãos, povos não cultivados, e que podem agora sentar-se para celebrar o místico banquete. E traça o retrato do judeu temente a Deus que medita sobre o enigma da Igreja e tem que reconhecer como o gênero humano caminha sob o estandarte de Cristo. Tal como aquele filho que vem do campo e pára diante da casa. Pensativo, discorre sobre esta Igreja e se pergunta o que ela realmente é. Vê a lei em sua casa e vê a lei entre nós. Os profetas estão com ele e estão também conosco; ele não tem já sacrifício, nós temos um sacrifício diário. Vê que esteve realmente no campo do Pai, mas não pode tomar parte no banquete do bezerro cevado. E depois ouve a symphonia, a harmonia de nossa unidade. De nada lhe adianta que saiam os criados e respondam às suas perguntas - por isso não discuto eu com eles: porque nós somos os criados -, mas a symphonia o comove, comovem-no as vozes, o coro, as solenidades, a festa eucarística, e se detém junto à Igreja e escuta; reconhece seus próprios salmos e fica pensativo... Vem o Pai e lhe diz: "Filho, tu estás sempre comigo" ( [14] ).
É a propósito desse judeu, piedoso e humilde, que Agostinho diz: "Consideremos um judeu que tenha guardado em sua mente a lei de Deus e a tenha vivido irrepreensivelmente, como disse ter vivido Saulo, para nós Paulo. Paulo foi tanto maior quanto menor se considerou; foi o máximo porque se fez o mínimo. Pois o próprio nome paulus significa pouco, pequeno, menor, mínimo; daí que, em nossa linguagem corrente, digamos: paulo post tibi loquor (daqui a pouco falarei com você); paulo ante (um pouco antes). Que é, pois, Paulo? É ele mesmo quem diz (ICor 15,9): <>." (112A, 8)
E conclui com interessante discussão sobre "o ter", a propósito da sentença do pai ao filho mais velho: "Tudo que é meu é teu".
"Como pode Deus dizer: <>? Na verdade, tudo o que é de Deus, é nosso; mas nem tudo nos está submetido. Uma coisa é dizer <>; outra, <>. Sempre que dizes <>, dizes com verdade, mas porventura é no mesmo sentido que o aplicas ao irmão e ao servo? É diferente o <> em <> e em <>; como não é o mesmo em <>, <> e <>.
"Excetuando a Mim, ouço que todas as coisas são tuas. Sim, dizes: <>, mas será que este <> é o mesmo que em <>? Ou pelo contrário <> é <>?
"Temos, pois, um superior, nosso Senhor, no qual fruímos e temos as coisas inferiores, das que somos senhores. Tudo, portanto, é nosso, se nós somos dEle" (112A,13).
*
NOTAS:
[1] . As interpretações alegóricas, como a de Cristo enquanto braço do Pai, não pareciam nada estranhas ao leitor da época.
[2] . Seguimos neste trabalho a numeração (aliás, usual) das edições de San Agustín da BAC (Sermones, 6 vols. 4a. ed., Madrid, 1981-1985).
[3] . Há no original um jogo de palavras: immorari/commemorari.
[4] . Não sabemos a que tribulação está aludindo e também não se conserva o sermão do domingo anterior.
[5] . Como mostra Pieper (op. cit.), o sentido clássico de curiositas consiste em algo muito mais sério do que a nossa curiosidade, essa inocente desorientação na periferia do ser humano; a curiositas é um descontrole fundamental, um afã louco de sensações da "pessoa que perdeu a capacidade de habitar em si mesma, que se pôs em fuga do próprio eu e que, com asco da devastação que observa em seu coração, se desespera numa procura com um medo egoísta, e se dissipa por mil caminhos frustrados".
[6] . Trata-se daquele jogo de palavras: sonantes, non saginantes antes mencionado.
[7] . O salmo 40 diz: "Esperei com toda a confiança no Senhor e ele veio a mim. Ele ouviu meu clamor e tirou-me da fossa mortal e do charco de lodo (...). Porque males sem conta me cercaram; não podia ver, imerso em minhas iniqüidades, mais numerosas que os cabelos de minha cabeça; e o meu coração me abandonou". Para os salmos e sua numeração seguimos a Nova Vulgata.
[8] . O original diz simplesmente iratus.
[9] . Evidentemente, Agostinho considera este dar morte a si mesmo no sentido em que Paulo fala inúmeras vezes da vida cristã como supressão de um "eu inautêntico", que deve morrer para dar lugar à vida de Cristo no cristão: "Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim" (Gál 2,20). Daí provém a oposição paulina entre homem exterior e homem interior (cfr. II Cor 4,16), entre homem velho e homem novo (Rom 6,6: "Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com Ele"). É o que, afinal, diz o próprio Cristo: se o grão de trigo não morre não dá fruto; quem perder sua vida conserva-la-á (cfr. Jo 12,24 e ss.). O bispo de Hipona aplica essa doutrina do Evangelho, familiar a seus ouvintes, recordando a necessidade das práticas penitenciais como os jejuns, a esmola etc. O que, aliás, é proposto pelo Apóstolo Paulo: "Os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências" (Gál 5,24); "mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: devassidão, etc." (Col. 3,5 e ss.).
[10] . Agostinho joga aqui com o duplo sentido do verbo expedire: "livrar", "desembaraçar-se" e "ser conveniente".
[11] . Procuramos manter o trocadilho do original: honoravit, non oneravit, literalmente "honrou-o mas não lhe pesou".
[12] . No original: ad portandum Deum, nisi quia portat portatus Deus?
[13] . Cfr. Is 52,7; Rom 10,15; Ef 6,15.
[14] . MEER, F. van der, San Agustín... p.122.
Tradução: Jean Lauand

Quarta-feira, Maio 10, 2006

Mistério dos Desígnios de Deus.


“Quem escuta o ensinamento do Pai e dEle aprende, vem a mim”.

Nosso único Mestre e Senhor, depois de ter proferido a sentença mencionada acima: A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou, disse depois no mesmo discurso: Eu, porém, afirmo: vós me vedes, mas não acreditais. Todo aquele que o Pai me der vem a mim. Quem é que virá a mim, senão o que há de acreditar em mim? Mas sua efetivação é concessão do Pai. É o que diz um pouco depois: Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos Profetas: “E todos serão ensinados por Deus. Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim (Jo 6,29.36.37.43-45).O que significa: Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim, senão: “Não há ninguém que escute o ensinamento do Pai e dele aprende que não venha a mim”. Pois, se todo aquele que escuta o Pai e dele aprende, vem, conseqüentemente todo aquele que não vem, não ouviu o Pai, nem dele aprendeu, pois se tivesse ouvido e aprendido, viria. E nenhum que escutou e aprendeu, deixou de vir: mas diz a Verdade: vem quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende.É muito estranha aos sentidos corporais esta escola, em que o Pai é ouvido e ensina para que se venha ao Filho. Ali está também o próprio Filho, porque ele é seu Verbo, por cujo intermédio ele ensina, e não o faz com os ouvidos carnais, mas com os do coração. Também está ali o Espírito do Pai e do Filho, pois ele não deixa de ensinar nem ensina separadamente, já que aprendemos que as obras da Trindade são inseparáveis. E ele é o Espírito Santo, do qual afirma o Apóstolo: Tendo o mesmo Espírito de fé (2Cor 4,13).Contudo, atribui-se principalmente ao Pai, porque o Unigênito é dele gerado e dele procede o Espírito Santo. Mas seria prolixo discorrer a esse respeito e, por outro lado, creio que chegou às vossas mãos o meu trabalho sobre a Trindade, que é Deus, constando de quinze livros.É muito estranha, repito, aos sentidos corporais esta escola em que Deus é ouvido e ensina. Vemos muitos vir ao Filho, porque vemos muitos crer em Cristo, mas não vemos como e onde ouviram isto do Pai e aprenderam. Esta graça é deveras secreta, mas quem duvida que seja uma graça? Com efeito, esta graça, conferida ocultamente aos corações humanos pela divina liberalidade, não é recusada por nenhum coração por mais endurecido que seja. Pois é conferida para, primeiramente, destruir a dureza do coração. Portanto, quando o Pai é ouvido interiormente e ensina para que se venha ao Filho, retira o coração de pedra e dá um coração de carne, como prometeu pela pregação do profeta (Ez 11,19). Assim ele forma os filhos da promessa e os vasos de misericórdia que preparou para a glória. Portanto, por que não ensina a todos para que venham a Cristo, senão porque todos os que ele ensina, ensina pela misericórdia, e os que não os ensina, não os ensina por sua justiça? Ele faz misericórdia a quem quer e endurece a quem ele quer. Mas se compadece conferindo bens e endurece retribuindo os pecados. Ou se estas palavras, como alguns preferiram entender, referem-se àquele a quem o Apóstolo diz: Dar-me-ás então, para que se entenda que foi ele que disse: Do modo que ele faz misericórdia a quem quer e endurece a quem ele quer, e as palavras que vêm à continuação, ou seja: Por que ele ainda se queixa? Quem, com efeito, pode resistir à sua vontade?, acaso a resposta do Apóstolo foi nestes termos: “O homem! é falso o que disseste?”. Não, mas foi nestes termos: Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? Vai acaso a obra dizer ao artista: “Por que me fizeste assim? O oleiro não pode formar de sua massa..., e o restante que bem conheceis.Contudo, de certo modo o Pai ensina todos a vir a seu Filho. Não é sem razão que está escrito nos Profetas: E todos serão ensinados por Deus. Depois de aludir a este testemunho, então acrescenta: Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende, vem a mim. Assim como, ao nos referir a um único professor de letras da cidade, dizemos corretamente: “Ele ensina a todos a literatura”, não porque todos recebem dele o ensinamento, mas porque não aprende a não ser com ele quem em tal cidade aprende literatura, assim digamos também com exatidão: “Deus ensina todos a vir a Cristo”, não porque todos venham, mas porque ninguém vem de outro modo. A razão pela qual não ensina a todos, o Apóstolo declarou à medida que julgou suficiente, porque, querendo manifestar sua ira e tornar conhecido seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, prontos para a perdição, a fim de que fosse conhecida a riqueza de sua glória para os vasos de misericórdia, preparados para a glória (Rm 9, 18-23). Por isso, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus (1Cor 1,18).A estes todos Deus ensina a virem a Cristo, pois a todos estes quer que se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (lTm 2,4). Se quisesse ensinar também a vir a Cristo aqueles para os quais a linguagem da cruz é loucura, sem dúvida eles viriam. Pois não engana nem se engana aquele que diz: Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende, vem a mim. Longe de pensar que deixa de vir algum que ouviu o ensinamento e aprendeu.Por que, perguntam eles, não ensina a todos? Se dissermos assim: aqueles que ele não ensina, não querem aprender, responder-nos-ão: E como entender o que está escrito: Porventura não nos tornarás a dar a vida? (Sl 84,7). Ou se Deus não faz querer os que não querem, por que a Igreja reza pelos perseguidores conforme o preceito do Senhor? (Mt 5,44). Pois neste sentido entendeu Cipriano as palavras que pronunciamos: Seja realizada a tua vontade na terra, como é realizada nos Céus (Mt 6,10), ou seja, como é realizada naqueles que já creram e são como o céu, assim também se realiza naqueles que não crêem, pelo qual são ainda terra. Portanto, por que pedimos em favor dos que não querem crer, a não ser para que Deus opere neles o querer? (Fl 2,13).O Apóstolo diz claramente a respeito dos judeus: Irmãos, o desejo do meu coração e a prece que faço a Deus em favor deles é que sejam salvos (Rm 10,1). O que pede pelos que não crêem, senão que creiam? De outro modo, não alcançariam a salvação. Pois, se a fé dos que crêem antecede a graça de Deus, acaso a fé daqueles pelos quais se pede que creiam antecede a graça de Deus? Responde-se: quando se pede por eles que não crêem, isto é, não têm fé, é para que lhes seja concedida a fé. Disse Cristo: Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair. Estas palavras ficam mais claras pelo que disse mais adiante. Pois, ao falar um pouco depois de sua carne a ser comida e de seu sangue a ser bebido”, e terem dito alguns discípulos: “Esta palavra é dura! Quem pode escutá-la?' Compreendendo que seus discípulos murmuravam por causa disso, Jesus lhes disse: “Isto vos escandaliza?' E disse um pouco depois: “As palavras que vos disse são espírito e vida. Alguns de vós, porém, não crêem' E acrescenta o evangelista: Jesus sabia, com efeito, desde o princípio, quais os que não acreditavam e quem era o que o entregaria. E dizia: “Por isto vos afirmei que ninguém pode vir a mim, se isto não lhe for concedido pelo Pai” (Cf. Jo 6,44-65).Portanto, ser atraído pelo Pai a Cristo e ouvir o Pai e dele aprender para vir a Cristo, é o mesmo que receber do Pai o dom para crer em Cristo. Pois não distinguiu os que ouvem o evangelho dos que não o ouvem, mas os que crêem dos que não crêem aquele que dizia: Ninguém pode vir a mim, se isto não lhe for concedido pelo Pai.16. Assim, pois, tanto a fé inicial como a perfeita, são dons de Deus. E quem não quiser contradizer aos evidentes testemunhos das Letras Sagradas, não duvide que este dom seja concedido a uns e não concedidos a outros. O motivo pelo qual não é concedido a todos, não deve inquietar aquele que crê que todos incorremos na condenação por um só homem, uma condenação muito justa, de sorte que nenhuma reprovação contra Deus seria justa, mesmo que ninguém alcançasse a libertação. Assim, fica evidente que é uma grande graça o fato de muitos se libertarem; eles percebem nos que não são libertados o que lhes era devido. Conseqüentemente, aquele que se gloria, glorie-se no Senhor, e não em seus merecimentos, que bem sabe serem iguais aos dos condenados.A razão pela qual este é libertado de preferência àquele, tenha-se em conta que insondáveis são seus juízos e impenetráveis seus caminhos (Rm 11,33). Melhor será ouvir e dizer a este respeito: Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? (Rm 9,20), do que ousar dizer, como se soubéssemos, por que quis que ficasse oculto aquele que não pode querer nenhuma injustiça.
Capítulo 8 do livro - A predestinação dos Santos ( Disponível aqui no blog).